O Poder da Respiração

“Ao mudar os padrões de respiração, podemos mudar nossos estados emocionais, como pensamos e como interagimos com o mundo.”

– Dr. Patricia Gerbarg, psiquiatra da Universidade de Harvard

 

Já deves ter percebido que a respiração é provavelmente o processo biológico mais importante, e ainda assim, continua a ser um dos maiores mistérios do corpo humano.

Um dos primeiros aspectos curiosos desse interessante processo é que ele pode ser involuntário e voluntário. Pode também ser, simultaneamente, o resultado e a causa do nosso estado interno.

O que muitas práticas espirituais antigas mencionaram por milhares de anos, a ciência moderna está a começar a revelar – que a cada respiração que fazemos, estamos a influenciar o nosso corpo físico e o nosso estado psicológico de maneiras que, até hoje, ainda não entendemos por completo.

Vamos mergulhar fundo neste tema, começando por examinar de onde vem a palavra “respiração”.

Referências antigas à palavra “respiração”

A palavra da língua grega antiga para “respiração” é “pneuma”, que pode significar “espírito”, “alma” e “psique”. Também é interessante notar que o termo “espírito” vem do termo em Latim “spiritus”, que significa respiração.

No Hinduísmo, a respiração também é considerada a mesma coisa que o espírito. Na cultura hindu, a respiração é a modo de influenciar o prana – a energia e força vital. Pranayama, “o controle do prana”, controla essa energia por meio do controle da respiração. Esta prática é um dos oito membros do Yoga, uma antiga tradição hindu que busca atingir um estado de “união” e “unidade”.

Podemos também encontrá-la bem representada na China Antiga. Qi Qing, um sistema milenar que combina movimentos suaves e técnicas de respiração, foi o primeiro campo da Medicina Tradicional Chinesa a surgir.

Qi Gong Practice. Source: https://youtu.be/cwlvTcWR3Gs

No budismo, a respiração não era usada apenas para melhorar a qualidade de vida, mas também para aceder a níveis mais elevados de consciência.

Mesmo na Bíblia, vemos uma referência convincente. Em Génesis 2: 7 podemos ler: “Então Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente.

Estas fascinantes referências vão alimentando a nossa curiosidade e nos fazendo questionar se existem segredos ocultos por detrás deste mecanismo aparentemente simples.

Na verdade, à medida que continuamos nossa pesquisa, percebemos que a respiração pode representar uma espécie de ponte entre o consciente e o subconsciente, ao nos permitir entrar em contato com o nosso corpo e influenciar direta e indiretamente o nosso sistema nervoso.

Quando olhamos através das lentes da evolução, a possibilidade de respirar inconscientemente, mas também de ter um vasto controle sobre o processo de respiração, foi um dos fatores-chave que permitiu que os nossos ancestrais mamíferos encontrassem comida, escapassem de predadores e se adaptassem a diferentes ambientes.

Infelizmente, evolução nem sempre significa progresso. Nas últimas décadas, os seres humanos têm regredido no modo como respiram, e isso pode estar a influenciar, de vários modos, a nossa saúde e bem-estar.

Para entender a respiração, poderá ser importante conhecer um pouco mais acerca de um músculo especial.

O diafragma, o “segundo coração”

Este músculo longo e flexível separa o tórax do abdómen. É conhecido por estar envolvido em muitas funções diferentes, como, por exemplo, engolir, falar e andar. No entanto, é mais conhecido por ser o principal músculo usado na respiração.

Ao respirarmos, o diafragma funciona de uma forma muito simples. Ao inspirar, ele contrai e cai, criando um espaço que permite que os pulmões se expandam à medida que se enchem de ar. Ao expirar, ele relaxa, pressionando os pulmões para cima, ajudando a libertar dióxido de carbono.

Quanto mais estudamos o diafragma, mais descobrimos como ele é peculiar. Ele influencia o equilíbrio metabólico do corpo, a circulação sanguínea e também é conhecido por afetar os nossos estados emocionais e psicológicos. O segredo reside na respiração abdominal profunda.

Já deves ter ouvido o termo “respire pela barriga”. Como deves saber, respiramos apenas pelos pulmões. No entanto, essa expressão refere-se ao processo de respiração diafragmática. Quando respiramos profundamente, o diafragma pressiona os órgãos abdominais, fazendo com que sua barriga se expanda. Com essa expansão, uma grande quantidade de sangue é movida por todo o corpo, ajudando o coração na sua missão fornecer oxigénio e outros nutrientes a todo o corpo. Este tipo de respiração profunda diminui os batimentos cardíacos e reduz ou estabiliza a pressão arterial.

Agora entendemos um pouco melhor porque é que o diafragma é às vezes chamado de “segundo coração”. Assim como nosso músculo bombeador de sangue, ele tem seu próprio ritmo; contribui para a circulação sanguínea e pode afetar a força e frequência do batimento cardíaco.

Experimenta por ti mesmo! Encontra uma posição confortável, senta-te calmamente e observa a tua respiração. Sente o ar a fluir pelas tuas narinas. Á medida que fores respirando mais lenta e profundamente, coloca a mão na barriga e observa como ela se expande. Este simples exercício irá ativar o nosso sistema nervoso parassimpático, responsável pelo relaxamento, ou seja, o nosso modo de “descansar e digerir”.

Practicing Pranayama in one of Breathe’s nature experiences

Perder o contato com a respiração abdominal profunda inibe de certo modo a nossa capacidade de entrar no modo de “descansar e digerir” com mais facilidade. Isso significa que tendemos a manter a tensão e o stress em nossos corpos e mentes por mais tempo. Um corpo que funciona continuamente através do sistema nervoso simpático – a nossa resposta ao stress: modo “lutar ou fugir”, terá uma probabilidade maior de contrair doenças cardiovasculares, uma resposta imunológica diminuída e poderá desencadear mais processos inflamatórios. Em outras palavras, um corpo stressado que não respira adequadamente tem maior chance de adoecer.

Por que perdemos o contato com a respiração profunda?

Depois de saber tudo isso, surge uma pergunta: se a respiração abdominal profunda é natural e inata, por que é que perdemos o contato com esse poderoso mecanismo de auto-regulação? Algumas explicações possíveis estão relacionadas com as nossas normas culturais.

Na nossa sociedade ocidental, muitas vezes somos encorajados a suprimir certos sentimentos e emoções. Cada vez que reprimimos a raiva, escondemos a nossa ansiedade ou reprimimos as lágrimas, isso irá perturbar o ritmo natural da respiração e, com isso, todo o nosso corpo. A repressão emocional também cria tensão dentro do corpo, e especialmente na área abdominal, deixando menos espaço para respirarmos profundamente. Tudo isso pode contribuir para o stress crónico e a tensão corporal inibindo-nos ainda mais de respirar adequadamente.

Outro fator que pode explicar a nossa perda de contato com a capacidade inata de respirar pela barriga é o nosso desejo de atingir a imagem corporal idealizada na nossa cultura moderna. Uma barriga lisa é considerada atrativa e, portanto, qualquer expansão do abdómen é desencorajada, levando as pessoas à “respiração torácica”, que acaba por ser uma respiração superficial.

É hora de realmente respirar novamente

A respiração é um dos processos mais fascinantes do nosso corpo. É uma das poucas coisas que nos acompanham por toda a nossa existência – a nossa vida começa com uma inspiração e termina com uma expiração.

Conhecer a respiração é realmente nos conhecermos a nível mais profundo. Levando-nos a entrar em contato com nossos ritmos internos e convidando-nos a criar intimidade com o nosso próprio corpo, a respiração tem o potencial de nos levar a uma extraordinária jornada de auto-descoberta.